Obrigada ao outro

Assim foram os últimos dias desse fim de ciclo – entre discretas gentilezas e supostas opiniões cheias de bom intento.

Passarem-se horas até eu realizar que toda e qualquer opinião vem sempre carregada de uma impressão.

Minha impressão não é melhor nem mais correta que a do outro mas minha impressão é como uma resposta a mala que carrego a muitos eons (eras) e talvez se adeque bem as minhas necessidades. A impressão do outro também ocorre da mesma forma, mas quando aplicada a minha vida, pode gerar mais confusão do que entendimento dependendo do grau de clareza e segurança que possuo em relação aos meus caminhos e propósitos mais profundos.

Esse foi um dos maiores presentes que ganhei esse ano – compreender que da mesma forma, quando emito a minha opinião ao outro sobre a sua vida, posso estar cometendo um grande engano, proferindo palavras carregadas das minhas impressões e gerando inseguranças e sentimentos de incapacidade no outro, afinal, se eu não tiver sensibilidade de perceber como funciona o sistema do outro e quiser adequar o sistema dele ao meu, estarei com toda certeza enfraquecendo o potencial dele ao invés de empodera-lo a utilizar suas próprias ferramentas.

São tantos os enganos que cometemos, e na verdade quando reflito sobre isso não me vem um pingo de culpa ou arrependimento, a não ser que as minhas intenções estivessem contaminadas no momento das opiniões e possíveis enganos. Se minha intenção foi diminuir, humilhar, enfraquecer ou mesmo, discretamente me reafirmar em cima da vulnerabilidade do outro, pois então estou cometendo o maior engano, pois quando desmereço o outro sem perceber diminuo a mim mesmo, pois se não me compadeço pelo sofrimento do outro e ainda por cima bem lá no meu íntimo vibro um pouquinho pois vejo “que estou melhor” (baseado nos meus pequeninos conceitos do que é melhor), nesse lugar onde me encontro estou cheio de ignorância pois acho que sou separado do outro.

Essa para mim é a grande sacada mas é preciso atenção e presença e um grande esforço (pelo menos para mim) para experimentar a humildade e naturalmente gerar compaixão e empatia pela dor do outro, não importa qual dor seja. Se no meu julgamento aquela dor é pequena, novamente estou enganado. A dor do outro só pode ser medida por ele mesmo e se eu meço o amor e atenção que darei ao outro, estou tão miserável e ignorante quanto ele.

Portanto ao me colocar separado do outro e ainda por cima me julgar num patamar diferente ou superior, corro um grande risco de desse lugar tão arrogante onde me encontro, emitir errôneas opiniões que não estão vindo do coração, do amor e da verdade de sermos tão vulneráveis e sofredores. Basta ser humano para cometer esse engano, mas basta carregar o profundo desejo de sair desse lugar que não é gentil nem amoroso para me abrir a permeabilidade e sentir junto ao outro, mãos dadas, com um forte abraço, sorriso sincero, sem medo nem necessidade de sustentar absolutamente nada que não seja a verdade do coração.

Desejo que sejamos mais gentis, mais atentos ao outro, mais convictos da nossa capacidade de amar. Não preciso de um mestre para isso, não preciso de um título, não preciso de grandes filosofias, preciso apenas confiar que esse amor já brota em mim, que sou merecedor e que posso transbordar esse amor e compartilhar pois a fonte é infinita, não acaba.

Desejo não carregar julgamentos tão duros e inflexíveis, desejo ainda me capacitar a tirar as minhas lentes e o máximo que conseguir, perceber as coisas através das lentes do outro e ainda quando for possível e minha mente estiver quieta, conseguir perceber as coisas como elas realmente são. Que eu me permita a liberdade de ser amanhã diferente do que sou hoje, sem medo dos julgamentos alheios, mas firme e determinada no meu propósito superior. Que eu possa compreender que assim como cometo esse engano, muitos ao meu redor também o cometem através da sua visão unilateral, então que eu não perca meu rumo ou duvide das minhas aspirações por, às vezes, não encontrar apoio ou validação nas palavras e olhares do outro.

Que eu e o outro possamos nos encontrar verdadeiramente, que não precise mais existir eu e o outro, pois assim como estou nele, ele está em mim

_/\_

 

 

 

 

 

 

Imagem: O Eu e o Outro, de Ricardo Ramos

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Terça em Casa – Projeto para a Vida

Você sabe o que significa o Projeto Terça em Casa? Não é simplesmente um encontro feito todas as terças para servir um delicioso almoço vegano preparado segundo os conceitos da Nutrição Ayurveda num ambiente harmonioso em meio a natureza. Vai um pouco mais além…

Faz parte do prazer de se desfazer por alguns instantes, das amarras de alguns conceitos como: empregado, patrão, empresa, rendimento, mercado de trabalho, lucro, concorrência, escassez, crise, e simplesmente cozinhar, degustar de novos sabores, abrir espaço na mente para novas formas de pensar, sentir e atuar.

Como isso?

Simples assim,

matematicamente e segundo os fundamentos da economia careta, não é rentável financeiramente para mim cozinhar uma vez na semana, convidando amigos e amigos de amigos e fazendo também novos amigos, esperando que eles possam, em meio a suas turbulentas e corridas vidas se comprometerem verdadeiramente, fazendo suas reservas antecipadamente (sabendo que isso é imprescindível para evitarmos desperdício de alimentos e podermos chamar DE VERDADE esse projeto de sustentável) e comparecerem por alguns instantes, a esse delicioso espaço onde vivo numa plena terça feira, dando se tempo para respirar, mastigar, olhar outras pessoas nos olhos, sorrir, ouvir passarinhos, barulhinho de cachoeira, sem pressa.

Entendeu por que esse é um evento ayurvédico? Não é pra vender mais não, até porque daqui há pouco passa o modismo da Ayurveda! E outra, não curto essa história de mercantilismo.

Igualmente, acredito nesse projeto, não por ser uma boa ideia, rentável, ou algo do tipo, mas por ser o que sei fazer, assim, simples assim. Como pode não “dar certo”? Afinal, o que você considera mesmo como “dar certo”?

Dar certo pra mim é sentir as pessoas saindo daqui mais tranquilas do que entraram. Não porque minha comida é mágica, kkk, mas sim por perceberem que são capazes de experimentarem o valor do tempo, do espaço, do vazio…

Se são 6 ou 20 pessoas que aparecem aqui na Terça em Casa, não é essa minha contagem, minha matemática se chama CONFIANÇA. Não aquela confiança infantil do ego, que diz que acredita mas só duvida, mas aquela que ora temos ora perdemos, até porque ainda estamos engatinhando na senda do algo a mais do que a simples matéria. Confiança de que as coisas são como são. Você faz o seu melhor, atua com propósito sincero e verdadeiro, alinha tua ação, fala e mente e aceita os resultados! Afinal, a lei do karma é essa, você não tem o menor controle do que está te acontecendo agora, mas você tem total responsabilidade por isso, e melhor ainda tem a escolha de plantar no AGORA as sementes condizentes com o teu propósito e com o que deseja colher!

Pois então, esse é o meu convite, para um pouquinho, passa aqui, usufrua e coma teu alimento que se chama TEMPO!

+ INFOS

whats 48. 999616244

espacocardamomo@gmail.com

 

 

Empresa ou Emsolta?

Há quase dez anos atrás nascia essa vontade de viver do que descobri que amo: alimentação consciente, meditação e Ayurveda e a troca desses conhecimentos com os outros. Parecia impossível, e as vezes ainda parece, mas estudei, trabalhei, criei experiências e aprendizados que só o tempo pode permitir.

Mas nada disso foi construído sozinho. Além do meu esforço, amor e vontade contínua em poder viver na matéria de forma consciente, equilibrada e harmonizada, existiu e ainda existe a participação efetiva de todos que cruzaram meu caminho nessa trajetória. Aqueles que acreditaram, os que duvidaram, os que usufruíram, os que se negaram, aqueles ainda que botaram mesmo a mão na massa junto comigo e tiveram ainda aqueles que não saíram do meu lado. Sou profundamente grata a todos. Não é aquela “gratidão”que ta na moda, rs, mas uma comoção profunda em ver que não fazemos nada sozinhos, absolutamente nada.

Existe um preceito básico no budismo, o da interexistência. Esse princípio para mim define os méritos, que todos aqueles que, com sua participação ajudam a construir algo que beneficia cada vez mais seres, e não visando benefícios somente a si mesmos. Esse princípio me ajuda a desenvolver a ajuda mútua, humildade, compaixão, amizade, empatia, gentileza e o fazer prestativo e desinteressado. Essas pessoas todas que ajudaram a construir o que é hoje o Espaço Cardamomo tem méritos acumulados inimagináveis, pois muitas vezes alguns pagam com a matéria por aqueles que não podem e não tem condições, e isso reverbera muito mas alto do que imaginamos. Estamos kármicamente conectados com esses seres que foram ajudados indiretamente.

Hoje, quando penso no Espaço Cardamomo, ele pode ser tudo, menos uma empresa. Gosto de chamá-lo de “emsolta”, pois ele está totalmente entregue aos ventos que sopram as vezes mais forte, outros tempos como uma brisa leve, destinando se ao sul, outras ao norte, fluindo e sendo construído e cada experiência. O Espaço Cardamomo não é uma entidade separada. Sou eu. É a personificação da aceitação da impermanência. É a aceitação de um novo conceito de produtos sazonais. É preciso flexibilizar. É preciso estar acordado e enxergar quais os caminhos que se colocam abertos.

Por que empresas lançam metas sempre pensando no futuro? Por que cálculos são feitos para se produzir cada vez mais, vender mais, lucrar mais? Por que querer mais e mais e nunca estar presente e usufruir do grande presente que é simplesmente estar? Eu definitivamente não quero isso. Não quero me engessar numa forma, sabendo que isso só gera sofrimento e ilusão. É tão difícil assim vivenciar a matéria sem se tornar escravo desse sistema rígido e infeliz?

Não sei ainda quais caminhos serão trilhados, mas apesar dos ventos mudarem a cada instante, o propósito e motivação permanecem intactos, os mesmos desde o começo – oferecer ferramentas para que todos os seres busquem se conhecer e enxergar que não há nada a ser buscado fora, já está tudo ai, dentro, pronto para ser tocado, reconhecido. Através dos produtos, atendimentos, cursos, oficinas, é essa a energia que entrego a todos, é nisso em que acredito.

Por fim, foram e ainda são tantos clientes que se tornam amigos, família, que ajudam sem nem se darem conta do que estão fazendo! Particularmente agradeço aos queridos amigos que estiveram junto no último Bazar Vegano aqui em Florida 😉 e acreditam e apóiam a forma como enxergo e ofereço os conhecimentos e produtos ayurvédicos ❤

 

Os ciclos – oportunidades ricas para transmutar dificuldades e sofrimento

Gosto sempre de lembrar que nosso tempo deve ser aquele que nos ajusta internamente. Temos o tempo prático, quando marcamos compromisso com as pessoas e cumprimos, mas temos ainda o tempo que nos mostra onde e como nossos processos começam, amadurecem e finalizam. Esse tempo diz respeito somente à nós mesmos, se refere ao espaço onde somos capazes de identificar o aparecimento de questões e resolução de aprendizados pessoais…

Portanto, o calendário que seguimos e o ano novo no dia 31 pode ser uma grande balela, salvo que a energia coletiva de um desejo profundo de realizar mudanças exerce força à nosso favor! Portanto vamos aproveitá-lo e reforçar qual o nosso propósito nessa vida, identificar padrões que já não nos favorecem, fortalecer a confiança de realizar nosso dharma!

Particularmente (e acredito que coletivamente também), esse ano foi duro, não só em termos sociais e financeiros, mas energéticos e emocionais. Parece que não foi permitido varrer sequer uma poeira para debaixo do tapete… Tudo foi colocado à prova, exposto ao sol para ser curado e transmutado, doeu, mas já está passando!

Uma varredura rápida (sugiro que experimentem essa revisão em suas vidas também): no início de 2016 sofri o maior golpe material e moral que poderia sofrer, caí no conto do vigário, fui enganada e lesada na cara dura! Nunca tinha visto algo assim, achava que acontecia exageradamente nas novelas da Tv, na política nossa de cada dia, enfim, com “os caras lá de cima”. Pois bem, pude reforçar minha opinião e regra hermética ocorrer em minha própria vida, de que “o que está ali em cima é o mesmo que está embaixo”. Vemos nossa micro vida refletir a macro loucura que o mundo está atravessando nesses últimos tempos!

No meio do ano fui assolada por um inverno sem igual na “Ilha da Magia”, vivendo num local sem a menor estrutura para tantos dias de chuva e vento sul. Resultado, dores profundas diárias devido à artrose que carrego em meu pé esquerdo, seguido de um mau humor típico de quem ainda não transcendeu a dor física…

Fechei o ciclo ouvindo meu nome ser dito em roda de pessoas que mal me conhecem, mas falam de mim com uma propriedade incrível, como se tivessem certeza dos absurdos que vem falando…

Ninguém fala sobre as dores, incrível ver nas redes sociais uma certa “plasticidade”, as pessoa sorrirem, serem gentis, solícitas, simpáticas… É triste assistir ralidades criadas somente para tirar uma boa foto de self. Isso gera nas pessoas mais inocentes uma certa sensação de “não ser bom o suficiente”, afinal “vejo todos tão bem, parece que só eu me sinto mal”. Que baita engano! E que baita confusão acharmos que falar da dor significa reafirmar e alimentar a dor. Você pode assumir sua dor, se trabalhar e tudo bem se quiser ser discreto com isso. Mas partilhar somente alegrias e conquistas faz com que nos sintamos cada vez mais sozinhos e deslocados quando estamos tristes, e isso não ajuda em nada a transmutar esse sentimento.

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Transmutação através da adaptação – essas foram as peças chave para liberar o sofrimento advindo da frustração de vivenciar tantas situações indesejáveis. Sentimento esse que carregamos quando nos rebelamos frente à realidade que estamos vivendo, mas de uma forma não muito inteligente, pois acabamos criando mais dificuldades ainda ao invés de enxergar meios e ferramentas que nos ajudem a nos adaptar. Ouvi semana passada isso de um amigo que vive mais no mato com as abelhas do que no meio social com os humanos – a lei da natureza não é dos mais fortes e sim daqueles que se adaptam ao meio. Voilá, essa é a receita da vida!

Bom…, desabafo natalino à parte, mas totalmente necessário para compreenderem a citação escolhida para esse ano. Texto retirado do maravilhoso livro “Mania de Sofrer” da Bel Cesar. Abstenham esse nome, esse livro é lindo, escrito segundo a Psicologia Budista Tibetana, vale à pena ler cada página!

“Desista da Frustração”

“(…) Desistir da frustração não é uma atitude displicente, na qual aparentemente demonstramos fazer pouco caso de algo, mas por dentro, continuamos a acumular cada vez mais ressentimento. Desistir da frustração é uma escolha que surge do amadurecimento de ter observado e refletido sobre como nos envolvemos continuamente em situações que não queremos mais vivenciar…

Se escutarmos nossos ressentimentos, eles revelarão nossas falsas esperanças: como ainda aguardamos por justiça e reconhecimento de pessoas que continuam sempre a os prejudicar.

É como se tivéssemos a esperança secreta de fazer as pazes com o inimigo, de sermos amados por ele. No entanto, como diz o ditado: não é possível agradar ao mesmo tempo gregos e troianos. Temos que encarar a realidade humana de que não seremos amados por todos. Afinal, amar é um reflexo de nosso interior: quem ama incondicionalmente já superou há muito tempo essa necessidade compulsiva de ser amado “de qualquer jeito”.

Esperar por reforços positivos, como elogios e agradecimentos daqueles que nos frustram, é uma armadilha que nos faz ficar cada vez mais presos à frustração. Desista dela: dê a si mesmo uma nova chance, uma nova vida. Enquanto carregarmos a pesada carga emocional de nossas frustrações, teremos uma vida insatisfatória.

Chogyam Trungpa é bem realista à este respeito quando escreve: Todas as promessas que temos ouvido são mera sedução. Esperamos que os ensinamentos resolvam todos os nossos problemas, esperamos receber meios mágicos para lidar com nossas depressões, dificuldades e fracassos sexuais. Mas, para nossa surpresa, começamos a compreender que isso não irá ocorrer. É muito decepcionante entender que devemos trabalhar em nós e com nosso sofrimento em vez de depender de um salvador ou dos poderes mágicos de técnicas iogues. (…) Devemos nos permitir ficar decepcionados, o que significa a rendição de nosso próprio ego, de nossas próprias conquistas pessoais. (…) É um contínuo desmascarar, um processo de retirar as máscaras camada após camada. Isso envolve injúria após injúria. (…) Essa sequência de desapontamentos nos desencoraja a abandonar a ambição. Vamos nos desmoronando mais e mais até tocarmos o chão, até entrarmos em contato com a sanidade básica da terra. (…) Quando estivermos ligados à terra, não haverá espaço para sonhos ou impulsos levianos e assim nossa prática finalmente se tornará viável.

O segredo está em relacionar-se com o real: estreitar nossos relacionamentos com as pessoas que cumprem o que dizem e afastar-se daquelas que empacam nosso tempo, ou seja, é melhor sermos mais seletivos em nossos relacionamentos: devemos buscar estar com pessoas que sempre encontram um jeito de nos pôr para cima, porque têm prazer em nos ver subir. Pois elas vêem na competição uma perda de tempo e acreditam que privilegiar o outro é a melhor poupança para enriquecer sua participação neste mundo.

(…) Claro que aprendemos a nos defender é necessário, mas também precisamos saber criar vínculos baseados no companheirismo, onde cada um doa a sua energia para o outro porque sabe que vale à pena somar forças. Mas, em nossa sociedade capitalista, vemos o mundo como uma constante ameaça, e por isso estamos mais propensos a nos defender do que a criar cumplicidades em prol do próprio mundo.

(…) Desistirmos de uma frustração quando finalmente concluímos que nosso compromisso com a vida significa sermos capazes de eliminar totalmente aquilo que gera negatividade. Desta forma, se nos oferecerem um prato de arroz para comer e nos disserem que um grão está envenenado, vamos rejeitar o prato todo! Podemos até mesmo responder: “Obrigado, de negatividade já estou saciado…”

E um bom início de ciclo à todos! Com direito a reflexão, espaço e tempo para cultivar a verdadeira paz, a verdadeira felicidade, a verdadeira harmonia. Que todos os seres sencientes sejam felizes! _/\_

 

Sábado de Masala Dosa

“Sábado me chega como um lampejo inesperado de arco-íris sob a asa negra de um pássaro, como a roda da saia de uma dançarina de kathak, girando mais e mais rápido. Sábado é a percussão explodindo dos estéreos dos rapazes que passam de carro em marcha perigosamente lenta, e estão procurando o que. Sábado me tira o fôlego…” (A Senhora das Especiarias).

Cada especiaria para um dia da semana, sábado é dia de assa fétida. Resina amarelada, escurece e amarga se tostada demasiadamente, rouba todo e qualquer aroma das demais especiarias se não manuseada corretamente. Ela esquenta, é pungente, marcante como alguns sábados de nossas vidas…Totalmente indispensável para o cozimento das lentilhas e feijões. Pois apesar de seu nome “fétido”, é ela quem nos auxilia a não fermentar internamente devido aos gases tóxicos das leguminosas.

“Daksha, isso aqui é grão de pimenta preta para ferver inteiro e beber, para afrouxar sua garganta e você poder aprender a dizer Não.” Como disse, cada tempero tem seu momento!

Assa fétida ou pimenta preta, ambas fortes e marcantes mas se combinadas em devida proporção, produzem um sabor inigualável. Parafraseando Paracelso “A diferença entre o veneno e o remédio é a dose”, assim é também com os sabores da cozinha: Salgou demais? Apimentou demais? Está ácido demais? Adoçou a ponto de doer a mandíbula? Os excessos podem botar tudo a perder…

A medida não é exata, as doses são relativas, cada um tem sua sensibilidade e deve desenvolver a percepção de seus próprios limites. Por isso não uso receita. Olho, experimento, testo, aprovo, mudo, assim é a cozinha alquímica, uma constante mutação.

Mas relembrando momentos de imenso prazer gustativo enquanto estive na Índia, finalmente recebi de um amigo recém chegado daquela aromática terra, os grãos de Urad, um tipo de feijão bem pequenininho e fácil de digerir, utilizado para fazer a tradicional receita de Masala Dosa.

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A massa fica maravilhosamente crocante, e como agora está na moda (rs), não contém glúten nem lactose 😉

Acontece assim, da noite pro dia, deixa-se de molho 2 xícaras de arroz branco orgânico numa bacia com o triplo de água, e numa segunda bacia deixa-se metade dessa medida de grãos Urad também com água. No dia seguinte, dispensa essa água, bate os grãos separadamente, acrescentando um pouquinho de água para facilitar formar o creme, ainda espesso, mas líquido. Quando os cremes estiverem igualmente homogêneos, mistura-os no liquidificador e bata novamente, agora acrescentando 2 c de sopa de açúcar mascavo, 1 c de chá de sal marinho, 1 c de chá de bicarbonato de sódio, 2 c de sopa de óleo de coco derretido ou outro óelo de sua preferência, e se preferir aromatize com as sementes moídas de pimenta preta, cobre com um pano e deixa a massa descansar por 8 a 12 horas em um local quentinho, para finalizar o processo de fermentação.

20160915_122846Depois aqueça uma frigideira de fundo grosso, oleia com um pouco de óleo de coco e derrame a massa, com a ajuda de uma concha ou as costas de uma colher grande, espalhe bem a massa, deixando a mais fina possível. Assim que perceber que ela está dourando, às vezes formam algumas bolhinhas, com a ajuda de uma espátula, vire e deixe dourar do outro lado. Retire do fogo e delicie-se com os recheios. Minhas dicas são:

O tradicional refogado de batatas, mas trocando por inhame! Descasque, pique em cubinhos e cozinhe no vapor 3 inhames médios, desligue quando ainda estiverem firmes. Prepare um refogado com azeite, 1 cebola roxa, pedaço pequeno de cúrcuma fresca ralada, a mesma medida de gengibre fresco ralado e pitada de assafétida, acrescente o inhame picado, pitada de sal e desligue antes de amolecerem demais e acrescente coentro fresco picadinho.

Pasta de Castanha de cajú – deixe 1 xícara das castanhas cruas e sem sal de molho na água por no mínimo 8hs, depois bate no processador pequeno ou liquidificador com pitada de cominho em semente, sumo de 1/2 limão, 1 c de sopa de shoyo, 1 c de chá de óleo de gergelim torrado, 1 c de chá de pimenta calabresa e sal, se precisar acrescente um pouco de água para bater.

Chutney de tomate – Pique em pedaços grandes 10 tomates orgânicos com casca e tudo, e junte numa panela com 1/2 xícara de açúcar mascavo, 2 c de sopa de vinagre de maçã, pitada de sal, 1 c de café de noz moscada ralada, 1 c de chá de pimenta fresca dedo de moça bem miudinha, e tampe. Deixe cozinhar pelo tepo que for necessário para que seque completamente a água e o creme esteja brilhante e saboroso.
Monte sua panqueca indiana, abrindo a massa, acrescentando o recheio de inhame, fecha, e coma à moda deles, com as mãos, molhando a Dosa nos molhos e deliciando-se com tantos aromas!

अच्छी भूख ou achchhee bhookh (bom apetite)!

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Retiro de Primavera – Yin Yoga, Ayurveda e Meditação

“Sentar-se em silêncio aparentemente é fácil para alguns e relativamente neurótico para outros. Nossas mentes estão assim ultimamente: dual, agitada, repetitiva, irriquieta, cheia de argumentos e questionamentos que nos fazem distrair-nos mais ainda, principalmente quando resolvemos buscar tais respostas do lado de fora. Buscamos no google, nos pais, professores, pseudo mestres, companheiros, alimentos, baladas, alguns lisérgicos, cursos, viagens e por aí vai…, ah, só pra constar, não há problema algum com nenhum desses subterfúgios citados, desde que não acreditemos que será ali que estarão as nossas respostas.

E mais uma vez nos frustramos ao não encontrar nada além de alguma diversão e depois um enorme vazio em todas essas coisas, afinal, segundo o conceito da filosofia budista, tudo é vazio. É, nada fácil para nossa mente apreender tal conceito, há não ser que experimentemos esse tal vazio. Sinceramente, não encontrei até hoje nenhuma outra ferramenta que me leve tão verdadeiramente e profundamente nesse tal vazio que não fosse a prática de meditação.

É aí que entra o propósito da prática: esvazie-se. Não há nada além disso, manter-se presente, pleno, aberto, disponível para experimentar a vida, tal como é, como se apresenta, e não como desejamos, esperamos, manipulamos e controlamos para que seja. É como é, e aceitar isso nos traz uma profunda paz e entendimento de que tudo está certo, em seu devido lugar e que não há nada a fazer. Esse ponto é ainda mais delicado, contando que vivemos numa sociedade rodeada de valores e padrões que nada mais são do que? FAZER. Faça isso, faça aquilo, pense, planeje, lute, interfira, esforce-se etc, por aí vai… À meu ver, o único esforço aqui é disciplina-se para manter a prática diária de meditação, como um remédio homeopático que nos trás um pouquinho de consciência à cada dia, cada momento.”

EIS O NOSSO CONVITE:

Venha meditar conosco nesse encontro de Primavera, permita-se passar algumas horas e dias na companhia de si mesmo, aquietando seu barulho interno e ajustando seu relógio ao seu propósito superior. Além das sessões de meditação, o retiro contará com as práticas de Yin Yoga, refeições ayurvédicas, orientações de saúde integral segundo a Medicina Ayurveda e Medicina Tradicional Chinesa e a prática de Mauna (silêncio).

O local propicia a prática do silêncio, é uma Reserva natural, com mata, cachoeira, trilhas, ambiente simples e aconchegante, chama-se Reserva Passarin, no município de Paulo Lopes, próximo à entrada de Garopaba (SC).

Serão poucas vagas, portanto quem tiver interesse, faça sua inscrição!

Para mais infos, visite a page do evento!

Consultoria Ayurveda na Prática!

Eu vejo muitas pessoas chegarem para os atendimentos terapêuticos com milhares de dúvidas à respeito da prática das orientações que sugerimos dentro do Programa de tratamento ayurvédico. Claro que os novos hábitos vão tomando lugar dos velhos aos poucos, nenhuma mudança é repentina e nem um pouco fácil, principalmente quando tocamos no assunto alimentação. Ah, esse assunto dá pano pra manga, envolve laços familiares, padrões comportamentais culturais, hábitos mecânicos, práticas de rotina repetidas há gerações com raízes ancestrais mesmo! Desde o arroz com feijão até a água de batata para dores de estômago, tudo repetimos à partir dos ensinamentos que recebemos desde nossa infância.

Nenhuma dessas práticas devem perder seu valor, inclusive, temos lugar em nosso coração e rotina para tudo! Mas, é sempre bom se questionar, “mesmo isso sendo feito à gerações, está sendo bom pra mim nesse momento?”. Temos medo da resposta, temos medo de descobrir que grande parte de nossas crenças não são nossas, ou pelo menos não nos agradam tanto assim quanto imaginávamos…

Portanto, passar receitas ayurvédicas para as pessoas é bem fácil, mas orientá-las a praticar mesmo, nem sempre é tão simples! Foi pensando nisso que iniciei o programa de Consultoria alimentar na prática, vendo que durante as Oficinas de alimentação as pessoas se divertem e passam a gostar de novos sabores, se permitem descobrir o novo e pegam gosto por isso!

As consultorias são na minha cozinha, com receitas pré definidas conforme o biotipo e rotina de quem vem praticar, mais infos aqui! Cozinhar em boa companhia trás mais sabor aos alimentos, ainda mais na companhia das especiarias terapêuticas!

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Aqui, eu a Ana Luisa estávamos curtindo fazer a massa de chapati 100% integral, a mesma que aproveitamos para fazer as samosas recheadas de abóbora cabotiá. Teve também massa de pizza sem glúten, recheio doce e salgado! A doce totalmente vegan e saborosa!

Comidinhas ayurvédicamente indianas!

Já imaginou unir a delícia dos sabores da Índia aos preceitos terapêuticos da Medicina Ayurveda? Essa é a proposta, alimento saboroso e naturalmente saudável. Isso eu já disse em outros momentos mas vale à pena repetir: nem toda receita indiana é ayurvédica e nem toda receita ayurvédica é indiana!

Vamos lá…, culturalmente a Índia é a referência gastronômica no que se refere aos alimentos muito bem condimentados, e claro que isso se deve não somente à uma questão histórica das navegações em rumo à busca das especiarias do Oriente, mas também a raíz dos conceitos da alimentação ayurvédica, onde as especiarias tem papel fundamental no processo da digestão de alimentos mais pesados.

Mas quando se visita esse país tão rico em sabores, cores e aromas, prova-se também alimentos altamente gordurosos e cheio de açúcar, em contrapartida ao conceito fundamental da alimentação ayurvédica: todo alimento deve ser rico em prana (energia).

Qualquer receita que seja baseada em alimentos frescos, livres de venenos, sem aditivos, de preferência em concordância com os atributos dos alimentos em relação à época do ano (quente/frio), pode ser considerada uma refeição ayurvédica!

Um bom exemplo é a receita tradicional do pão indiano chapati, adaptado à versão 100% integral, que combina com inúmeras possibilidades de recheios,  mas que no nosso caso optamos por algo nutritivo, saboroso e rico em prana, aproveite e reproduza a receita e deguste com os amigos!

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CHAPATI “AYURVÉDICO”

Para a massa:

Misturar em uma bacia 2 xícaras de farinha integral peneirada com uma pitada de sal, deixar um buraco no meio e acrescentar 1 c de sopa de ghee (se for vegana, trocar por azeite), e um pouco mais do que 1/2 xícara de água morna (isso varia muito dependendo da massa, mas não deixá-la muito mole e nem tão seca senão endurece!), misturar com as mãos, retirar da bacia e sovar por 5′ numa mesa, fazer uma bola e deixar a massa descansar num pano por 1h, sovar de novo e separar pequenas bolinhas para abrir já os discos de chapati individuais.

Assar um disco por vez numa frigideira bem quente mas em fogo médio baixo até dourar levemente, virar o outro lado e dourar um pouco mais, retirar na frigideira e levar diretamente para a boca do fogo por alguns instantes até formar bolhinhas e escurecer alguns pontinhos na massa, retirar e deixar os discos descansarem com um pouquinho de ghee entre elas.

Para o Recheio:

Preparar o chutney de tomate – Preparar uma calda com 2 c de sopa de água, 1 x de mascavo, 2 c de sopa de vinagre de maçã, 1 c de sopa de pimenta calabresa em flocos, uma pitada de sal marinho, 1 c de café de noz moscada e uma pitada de canela em pó, em seguida acrescentar 1kg de tomate orgânico grosseiramente picado, mexer, tampar a panela e cozinhar em fogo médio até o tomate soltar bem a água, então manter semi tampada, mexendo de vez em quando para não grudar. O segredo é desligar o fogo quando o chutney estiver quase seco (parece ponto de brigadeiro!), fica um creme espesso, alguns pedacinhos e um aroma inigualável!

Preparar o paté de semente de girassol germinada – Hidratar por 6hs 2 xícaras de semente de girassol crua, sem casca e sem sal, dispensar essa água, e bater as sementes do liquidificador com 1/2 xícara de azeite, sumo de um limão inteiro, pitada de sal, e água o suficiente para bater até virar um creme espesso (pode até deixar algumas sementinhas inteiras se preferir). Desligar e acrescentar folhas frescas de orégano, salsinha e tomilho.

Para Finalizar:

Com o disco de chapati aberto, fazer uma cama de cenoura raladinha, por cima salpicar brotos de bambu ou alfafa, passar uma camada do chutney já frio, acrescentar uma camada do paté de girassol, enrolar, espetar um palitinho e voilá, delicioso lanche nutritivo prontinho para saborear!

 

Dicas Ayurvédicas para a alimentação no Outono/Inverno

Como estamos todos integrados com nossa natureza interna e externa, assim , como na premissa alquímica “o que está em cima é como está embaixo”, igual acontece com nosso corpo e mente nos diferentes períodos, temperaturas e estações.

Somos constantemente atingidos pelas mudanças climáticas, assim também como temos uma grande participação nessas mesmas alterações. O movimento é fluído, contínuo e de mão dupla! Logo, se faz frio lá fora, a tendência é esfriar lá dentro, se sentimos nosso organismo ressecado devemos observar a característica do ar ao nosso redor e por aí vai…

Se o Outono carrega as características seco e frio  – basta observar as plantas secarem ao nosso redor, as folhas caindo, o vento rasgando seco e frio – devemos observar esses atributos em tudo o que nos cerca: o que esfria o meu corpo, o que “seca” não somente meu corpo, mas meus sentimentos? Ganhe consciência dessas questões e evite alimentar-se das situações que irão “agravar” essas características.

Em termos práticos, leve essa premissa para sua mesa e refeições diárias, escolha alimentos que irão “olear” levemente os órgãos, que irão nutrir, aquecer…, fica a dica: leite vegetal (para olear), quentinho com uma pitada de óleo de coco e canela em pó (para aquecer), um pouquinho de melado para adoçar (e nutrir)…

Não se deve esquecer que apesar desse ser um período para ingerir alimentos mais quentes, logo, cozidos, o prana (energia vital) deve ser mantido durante a dieta diária, então abuse dos verdinhos frescos levemente refogados 😉

Uma receitinha especial com a premissa ayurvédica para o Outono:

Caldo de Batata Doce e Ora pro nóbis

Cozinhar na água 4 batatas doces médias sem casca e picadas, quando já estiverem macias batê-las no liquidificador ou mixer, enquanto isso refogue na panela 1 colher de sopa de ghee, 1 c de sopa de semente de mostarda preta, uma pitadinha de assafétida, 1 c de chá de cominho em pó, 1 c de chá de cúrcuma fresca ralada ou em pó, 1 c de chá de gengibre fresco ralado e 1 canela em pau, então acrescentar 1 x de folhas de ora pro nóbis picadas, desligar e misturar ao caldo de batata doce, acertar o sal e acrescentar mais verdinhos como salsinha, tomilho e orégano frescos.

Acompanha com um bom pão de fermentação natural levemente aquecido na frigideira com óleo de coco e bon apetit!

 

Santosha – contentamento

Essa noite vou adormecer feliz, felizmente acordada de que isso também passará…

Essa noite pedirei por todos aqueles que sofrem, e assim como eu, sabem que isso também passará…

Pedirei também por aqueles que se afligem e se esquecem de quem realmente são, assim como eu…

Dormirei o sono daquele que deseja despertar e não desejar mais nada, à não ser estar exatamente onde está fazendo a única coisa que poderia ser feita.

Sonharei que as diferenças, dores e sofrimento são delusões de nossa mente coletiva. Sonharei que o ciclo da expansão chega ao fim, e que finalmente retornamos para dentro de nossas casas, para poder varrer todo o restante da barbárie que há tanto viemos acumulando debaixo do tapete, pelos cantos da cozinha, atrás da porta…

Acredito que não há realmente para quem orar durante a noite que atravesso. Não há mais ninguém lá fora que possa me dar a mão e dizer o quanto somos todos amados e perfeitos como somos. Acredito, e portanto passo a ser.

Sendo como é, não se permite a brecha das conjecturas, que nada mais são do que amontoados móveis velhos e bichos empalhados pendurados na parece que não sustenta mais nada além de de conceitos e ilusões. Derrube-as todas, eu digo, uma a uma, e veja a beleza brotando do inesperado!

Ao acordar dessa longa noite de sono, terei novamente aquela incômoda sensação de ainda estar dormindo…, mas dessa vez perceberei o vazio de todas as coisas.