Obrigada ao outro

Assim foram os últimos dias desse fim de ciclo – entre discretas gentilezas e supostas opiniões cheias de bom intento.

Passarem-se horas até eu realizar que toda e qualquer opinião vem sempre carregada de uma impressão.

Minha impressão não é melhor nem mais correta que a do outro mas minha impressão é como uma resposta a mala que carrego a muitos eons (eras) e talvez se adeque bem as minhas necessidades. A impressão do outro também ocorre da mesma forma, mas quando aplicada a minha vida, pode gerar mais confusão do que entendimento dependendo do grau de clareza e segurança que possuo em relação aos meus caminhos e propósitos mais profundos.

Esse foi um dos maiores presentes que ganhei esse ano – compreender que da mesma forma, quando emito a minha opinião ao outro sobre a sua vida, posso estar cometendo um grande engano, proferindo palavras carregadas das minhas impressões e gerando inseguranças e sentimentos de incapacidade no outro, afinal, se eu não tiver sensibilidade de perceber como funciona o sistema do outro e quiser adequar o sistema dele ao meu, estarei com toda certeza enfraquecendo o potencial dele ao invés de empodera-lo a utilizar suas próprias ferramentas.

São tantos os enganos que cometemos, e na verdade quando reflito sobre isso não me vem um pingo de culpa ou arrependimento, a não ser que as minhas intenções estivessem contaminadas no momento das opiniões e possíveis enganos. Se minha intenção foi diminuir, humilhar, enfraquecer ou mesmo, discretamente me reafirmar em cima da vulnerabilidade do outro, pois então estou cometendo o maior engano, pois quando desmereço o outro sem perceber diminuo a mim mesmo, pois se não me compadeço pelo sofrimento do outro e ainda por cima bem lá no meu íntimo vibro um pouquinho pois vejo “que estou melhor” (baseado nos meus pequeninos conceitos do que é melhor), nesse lugar onde me encontro estou cheio de ignorância pois acho que sou separado do outro.

Essa para mim é a grande sacada mas é preciso atenção e presença e um grande esforço (pelo menos para mim) para experimentar a humildade e naturalmente gerar compaixão e empatia pela dor do outro, não importa qual dor seja. Se no meu julgamento aquela dor é pequena, novamente estou enganado. A dor do outro só pode ser medida por ele mesmo e se eu meço o amor e atenção que darei ao outro, estou tão miserável e ignorante quanto ele.

Portanto ao me colocar separado do outro e ainda por cima me julgar num patamar diferente ou superior, corro um grande risco de desse lugar tão arrogante onde me encontro, emitir errôneas opiniões que não estão vindo do coração, do amor e da verdade de sermos tão vulneráveis e sofredores. Basta ser humano para cometer esse engano, mas basta carregar o profundo desejo de sair desse lugar que não é gentil nem amoroso para me abrir a permeabilidade e sentir junto ao outro, mãos dadas, com um forte abraço, sorriso sincero, sem medo nem necessidade de sustentar absolutamente nada que não seja a verdade do coração.

Desejo que sejamos mais gentis, mais atentos ao outro, mais convictos da nossa capacidade de amar. Não preciso de um mestre para isso, não preciso de um título, não preciso de grandes filosofias, preciso apenas confiar que esse amor já brota em mim, que sou merecedor e que posso transbordar esse amor e compartilhar pois a fonte é infinita, não acaba.

Desejo não carregar julgamentos tão duros e inflexíveis, desejo ainda me capacitar a tirar as minhas lentes e o máximo que conseguir, perceber as coisas através das lentes do outro e ainda quando for possível e minha mente estiver quieta, conseguir perceber as coisas como elas realmente são. Que eu me permita a liberdade de ser amanhã diferente do que sou hoje, sem medo dos julgamentos alheios, mas firme e determinada no meu propósito superior. Que eu possa compreender que assim como cometo esse engano, muitos ao meu redor também o cometem através da sua visão unilateral, então que eu não perca meu rumo ou duvide das minhas aspirações por, às vezes, não encontrar apoio ou validação nas palavras e olhares do outro.

Que eu e o outro possamos nos encontrar verdadeiramente, que não precise mais existir eu e o outro, pois assim como estou nele, ele está em mim

_/\_

 

 

 

 

 

 

Imagem: O Eu e o Outro, de Ricardo Ramos

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2 respostas para ‘Obrigada ao outro

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