Os ciclos – oportunidades ricas para transmutar dificuldades e sofrimento

Gosto sempre de lembrar que nosso tempo deve ser aquele que nos ajusta internamente. Temos o tempo prático, quando marcamos compromisso com as pessoas e cumprimos, mas temos ainda o tempo que nos mostra onde e como nossos processos começam, amadurecem e finalizam. Esse tempo diz respeito somente à nós mesmos, se refere ao espaço onde somos capazes de identificar o aparecimento de questões e resolução de aprendizados pessoais…

Portanto, o calendário que seguimos e o ano novo no dia 31 pode ser uma grande balela, salvo que a energia coletiva de um desejo profundo de realizar mudanças exerce força à nosso favor! Portanto vamos aproveitá-lo e reforçar qual o nosso propósito nessa vida, identificar padrões que já não nos favorecem, fortalecer a confiança de realizar nosso dharma!

Particularmente (e acredito que coletivamente também), esse ano foi duro, não só em termos sociais e financeiros, mas energéticos e emocionais. Parece que não foi permitido varrer sequer uma poeira para debaixo do tapete… Tudo foi colocado à prova, exposto ao sol para ser curado e transmutado, doeu, mas já está passando!

Uma varredura rápida (sugiro que experimentem essa revisão em suas vidas também): no início de 2016 sofri o maior golpe material e moral que poderia sofrer, caí no conto do vigário, fui enganada e lesada na cara dura! Nunca tinha visto algo assim, achava que acontecia exageradamente nas novelas da Tv, na política nossa de cada dia, enfim, com “os caras lá de cima”. Pois bem, pude reforçar minha opinião e regra hermética ocorrer em minha própria vida, de que “o que está ali em cima é o mesmo que está embaixo”. Vemos nossa micro vida refletir a macro loucura que o mundo está atravessando nesses últimos tempos!

No meio do ano fui assolada por um inverno sem igual na “Ilha da Magia”, vivendo num local sem a menor estrutura para tantos dias de chuva e vento sul. Resultado, dores profundas diárias devido à artrose que carrego em meu pé esquerdo, seguido de um mau humor típico de quem ainda não transcendeu a dor física…

Fechei o ciclo ouvindo meu nome ser dito em roda de pessoas que mal me conhecem, mas falam de mim com uma propriedade incrível, como se tivessem certeza dos absurdos que vem falando…

Ninguém fala sobre as dores, incrível ver nas redes sociais uma certa “plasticidade”, as pessoa sorrirem, serem gentis, solícitas, simpáticas… É triste assistir ralidades criadas somente para tirar uma boa foto de self. Isso gera nas pessoas mais inocentes uma certa sensação de “não ser bom o suficiente”, afinal “vejo todos tão bem, parece que só eu me sinto mal”. Que baita engano! E que baita confusão acharmos que falar da dor significa reafirmar e alimentar a dor. Você pode assumir sua dor, se trabalhar e tudo bem se quiser ser discreto com isso. Mas partilhar somente alegrias e conquistas faz com que nos sintamos cada vez mais sozinhos e deslocados quando estamos tristes, e isso não ajuda em nada a transmutar esse sentimento.

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Transmutação através da adaptação – essas foram as peças chave para liberar o sofrimento advindo da frustração de vivenciar tantas situações indesejáveis. Sentimento esse que carregamos quando nos rebelamos frente à realidade que estamos vivendo, mas de uma forma não muito inteligente, pois acabamos criando mais dificuldades ainda ao invés de enxergar meios e ferramentas que nos ajudem a nos adaptar. Ouvi semana passada isso de um amigo que vive mais no mato com as abelhas do que no meio social com os humanos – a lei da natureza não é dos mais fortes e sim daqueles que se adaptam ao meio. Voilá, essa é a receita da vida!

Bom…, desabafo natalino à parte, mas totalmente necessário para compreenderem a citação escolhida para esse ano. Texto retirado do maravilhoso livro “Mania de Sofrer” da Bel Cesar. Abstenham esse nome, esse livro é lindo, escrito segundo a Psicologia Budista Tibetana, vale à pena ler cada página!

“Desista da Frustração”

“(…) Desistir da frustração não é uma atitude displicente, na qual aparentemente demonstramos fazer pouco caso de algo, mas por dentro, continuamos a acumular cada vez mais ressentimento. Desistir da frustração é uma escolha que surge do amadurecimento de ter observado e refletido sobre como nos envolvemos continuamente em situações que não queremos mais vivenciar…

Se escutarmos nossos ressentimentos, eles revelarão nossas falsas esperanças: como ainda aguardamos por justiça e reconhecimento de pessoas que continuam sempre a os prejudicar.

É como se tivéssemos a esperança secreta de fazer as pazes com o inimigo, de sermos amados por ele. No entanto, como diz o ditado: não é possível agradar ao mesmo tempo gregos e troianos. Temos que encarar a realidade humana de que não seremos amados por todos. Afinal, amar é um reflexo de nosso interior: quem ama incondicionalmente já superou há muito tempo essa necessidade compulsiva de ser amado “de qualquer jeito”.

Esperar por reforços positivos, como elogios e agradecimentos daqueles que nos frustram, é uma armadilha que nos faz ficar cada vez mais presos à frustração. Desista dela: dê a si mesmo uma nova chance, uma nova vida. Enquanto carregarmos a pesada carga emocional de nossas frustrações, teremos uma vida insatisfatória.

Chogyam Trungpa é bem realista à este respeito quando escreve: Todas as promessas que temos ouvido são mera sedução. Esperamos que os ensinamentos resolvam todos os nossos problemas, esperamos receber meios mágicos para lidar com nossas depressões, dificuldades e fracassos sexuais. Mas, para nossa surpresa, começamos a compreender que isso não irá ocorrer. É muito decepcionante entender que devemos trabalhar em nós e com nosso sofrimento em vez de depender de um salvador ou dos poderes mágicos de técnicas iogues. (…) Devemos nos permitir ficar decepcionados, o que significa a rendição de nosso próprio ego, de nossas próprias conquistas pessoais. (…) É um contínuo desmascarar, um processo de retirar as máscaras camada após camada. Isso envolve injúria após injúria. (…) Essa sequência de desapontamentos nos desencoraja a abandonar a ambição. Vamos nos desmoronando mais e mais até tocarmos o chão, até entrarmos em contato com a sanidade básica da terra. (…) Quando estivermos ligados à terra, não haverá espaço para sonhos ou impulsos levianos e assim nossa prática finalmente se tornará viável.

O segredo está em relacionar-se com o real: estreitar nossos relacionamentos com as pessoas que cumprem o que dizem e afastar-se daquelas que empacam nosso tempo, ou seja, é melhor sermos mais seletivos em nossos relacionamentos: devemos buscar estar com pessoas que sempre encontram um jeito de nos pôr para cima, porque têm prazer em nos ver subir. Pois elas vêem na competição uma perda de tempo e acreditam que privilegiar o outro é a melhor poupança para enriquecer sua participação neste mundo.

(…) Claro que aprendemos a nos defender é necessário, mas também precisamos saber criar vínculos baseados no companheirismo, onde cada um doa a sua energia para o outro porque sabe que vale à pena somar forças. Mas, em nossa sociedade capitalista, vemos o mundo como uma constante ameaça, e por isso estamos mais propensos a nos defender do que a criar cumplicidades em prol do próprio mundo.

(…) Desistirmos de uma frustração quando finalmente concluímos que nosso compromisso com a vida significa sermos capazes de eliminar totalmente aquilo que gera negatividade. Desta forma, se nos oferecerem um prato de arroz para comer e nos disserem que um grão está envenenado, vamos rejeitar o prato todo! Podemos até mesmo responder: “Obrigado, de negatividade já estou saciado…”

E um bom início de ciclo à todos! Com direito a reflexão, espaço e tempo para cultivar a verdadeira paz, a verdadeira felicidade, a verdadeira harmonia. Que todos os seres sencientes sejam felizes! _/\_

 

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